
Na infância e adolescência, tornei-me o locutor oficial dos eventos escolares, não dava muito pra fugir da sina de locutor, todos sabiam que eu era filho de um locutor de rádio e por isto sempre acreditaram que eu também tinha a desenvoltura para falar ao microfone, e lá estava eu apresentando os eventos artísticos e oficiais, me lembro muito bem de uma época em que eu cursava a 5ª serie de grupo, era o dia dos professores, e como acontecia na minha época, o mestre sempre tinha seu valor demonstrado pelos alunos .No dia da comemoração, cada um dos alunos levava um presente especial para sua mestra ou mestre. Tenho que ser sincero, meu pai, nunca foi muito chegado a gastar dinheiro com este tipo de coisas , então ele buscou um forma mais criativa do filho dele homenagear a mestra.
Meu pai tinha um colega de profissão chamado ELIAS JORGE SAFF, acredito que seja esta a grafia correta do nome dele, infelizmente eu acho que ele também já não se encontra mais no mundo dos encarnados, ele tinha um estúdio em casa, lá no bairro Cachoeirinha em BH, e então resolveram que eu ia fazer uma produção em áudio com uma mensagem bonita e uma musica melancólica pra dar de presente á professora.
E lá fui eu , gravar e ser cobrado pelo meu pai a fazer uma locução como fosse um profissional, respeitar entonação, ponto, virgula e dar interpretação ao texto, eu não tinha nem 10 anos e já recebia aulas de locução. Pronto, gravamos com a trilha do filme Once Upon A Time In The West, agora só faltava dar pra professora.
Chega o dia dos professores, eu estudava na Escola Estadual Pandiá Calógeras, que ficava ou fica até hoje, não sei ao certo, ao lado da Assembléia Legislativa de Minas Gerais. Os alunos começaram a entregar cada um os seus presentes, como era uma escola pública frequentada por muitos alunos de classe média alta, a galera esnobava nos presentes, cada um querendo fazer uma média maior com a professora, e eu lá , sentado no meu cantinho, sem nada na mão ,esperando quem? Meu pai, que ficou de levar o K7 com a gravação , de repente, quanto todos entregaram seus presentes e ficaram com aquela cara de superioridade , pensando assim “ Ué e o presente do Luigi?” eis que entra o meu pai, carregando aquela pancada de equipamento de áudio pra ligar na sala de aula para eu dar meu presente à professora.
Não teve dia dos professores melhor para mim, com apenas uma fita K7 e um dedinho para apertar o Play do toca fitas, eu vi a sala inteira se render à minha locução e a professora se desmanchar em lágrimas e soluços de tanta emoção, daí a pouco quem ouvia aquela gravação não era apenas minha turma e minha professora, mas todas as professoras , supervisora, diretora, enfim, a escola toda queria ouvir a homenagem que o pequeno locutor Luigi Stéfano tinha feito. Depois disto vieram as várias participações nas festas cívicas, artísticas e esportivas que se realizavam nas escolas por onde estudei, eu sempre ali fazendo as apresentações ,com mais intensidade na Escola Municipal Avelino Camargos , no bairro Água Branca em Contagem MG onde morei por muitos anos .
Foi ali também naquele bairro, que comecei a ter as minhas primeiras experiências na área de sonoplastia. Era o estúdio de transmissão da RADIO AMÉRICA AM de BH, que pertence á Arquidiocese de da Capital, O mestre naquela época se chamava MÁRIO ROCHA, também acredito que ele já não esteja mais no mundo dos encarnados, ô velhinho gente boa, naquela época, seu Mário já beirava os seus 50 a 60 anos, tinha um opala 2 portas bege com uma faixa preta que pegava de ponta a ponta , encerava aquele carro toda semana, com um detalhe, cada dia da semana era uma parte, assim , lustrava o opalão durante toda a semana.
Seu Mário Rocha era o responsável técnico da Radio América naquela época , então ele gerenciava a área dos transmissores e tomava conta dos operadores de áudio , foi ali que eu comecei minhas primeiras lições de operador de rádio. Os programas vinham gravados do estúdio de gravação da emissora e veiculados da área de transmissão, onde por sinal também ficavam os transmissores da emissora, diga-se de passagem, um guarda roupa inteiro de transmissor, muitos diziam na época, que ficar ao lado deles fazia com que ficássemos de cabelos brancos por causa do RF, deve ser por isto que já estou de cabeça branca hahahahah!!!; bom , mas voltando a falar sério, gostaria de lembrar muito do nome de alguns companheiros daquela época , os operadores que me ajudaram a aprender o oficio de sonoplasta, mas infelizmente um dos meus maiores defeitos é esquecer o nome das pessoas, então me perdoem , eles juntamente com o Sr. Mário Rocha, me ensinaram como ser um operador de rádio e o aprendizado funcionou assim, sentei-me durante uma semana só observando e ajudando a guardar os discos, separar a programação musical que como disse, já tinha aprendido lá pelos meus 7 anos e a separar os rolos de fita que vinham com a programação gravada, pelos locutores e pelos padres da Arquidiocese.
Na outra semana , a gente começa a ser explorado pelos operadores (normal), tipo assim , eles iam tomar um cafezinho e me pediam pra ficar na mesa passando o bloco de musicas e hora certa, vale lembrar , que tudo era gravado, locução, musica, hora certa, comercial, tudo em fita de rolo, então eles voltavam do café um 40 minutos depois, um belo dia um deles falou assim “ ô pintinho , chega o reio, senta e faz” eu disse, mas eu ainda não estou preparando, e a resposta do seu Mário Rocha foi curta e seca, “operador só aprende fazendo, se vira e não deixa dar buraco na radio” ( buraco na radio é quando, falha alguma coisa e o ouvinte, não ouvi nada em casa, um buraco de 30” parece uma hora no radio).
Pronto, suei frio, tremi as pernas, deu dor de barriga, mas não podia deixar dar um buraco na radio, um dos fatos curiosos daquela época é que as mesas de áudio não tinham a opção CUE ( ou escuta em off) para o pick-ups, então a gente colocava a musica no ponto no ouvido, naquele “zzzzz” que nos mostrava o inicio da faixa musical, era o “ouvidômetro” que tinha que funcionar.Depois de mais ou menos uma hora e meia, estava pronto mais um operador de radio, seu Mário rocha chegou e disse, “operador é assim , só aprende fazendo”, depois disto é que a exploração começa, o operador do horário não trabalha mesmo e explora do aprendiz que está todo entusiasmado e feliz por ter se tornado um operador de rádio ou sonoplasta se preferir.
Fiquei ali por alguns meses, só trabalhando sem receber, afinal , antes ficar aprendendo a fazer alguma coisa de útil do que ficar em casa dormindo sem fazer nada a tarde inteira, era a filosofia do meu pai, hoje, concordo plenamente com ele, com isto me tornei junto com outros grandes profissionais de sonoplastia a ser um dos mais hábeis operadores de radio de bh, de acordo com a opinião de muitos colegas que me viam operar a emissora de rádio dada a minha rapidez em abrir , aumentar , abaixar e fechar os potenciômetros das mesas de áudio.
Tentei até uma efetivação no quadro de operadores de áudio da Radio América, mas não deu a grade como chamamos o quadro de profissionais da emissora, estava cheio . Mas.... a minha Historia com a Radio América não terminou ali, a exemplo da Radio Cultura , também vou voltar á falar desta emissora que também fez parte da carreira deste profissional. Até a próxima postagem ....

